segunda-feira, 28 de abril de 2014

Deixando Cracóvia

Saímos do hotel e fomos conhecer um pouco mais sobre a história de Cracóvia durante a Shoá. Fomos a Podgorz, onde uma praça com um monumento marca o local, a entrada do Gueto, onde os judeus eram selecionados e deportados.

Cerca de 20 mil judeus foram obrigados a viver confinados no Gueto, cercado por muros que lembram, em sua forma, lápides de túmulos dos cemitérios judaicos. Longe de ser coincidência, tratava-se de uma insinuação cruel e premeditada dos nazistas para pressionar psicologicamente os judeus com uma uma mensagem diária e perturbadora: daqui não sairão vivos. A fome e as epidemias conviviam com o desespero diariamente nas ruas do Gueto.

Diante dessa situação, o mundo calou-se. Os vizinhos deram as costas. Mas algumas pessoas agiram de outra maneira. Vimos na praça a farmácia do dr. Thadeus Pankiewicz, um justo entre as nações.
O farmacêutico polonês insistiu com os nazistas para manter sua farmácia dentro do gueto e chegou a suborná-los para poder seguir seu trabalho, que lhe permitia salvar vidas e mudar destinos. Em sua farmácia, produzia documentos falsos, abrigava pessoas, fornecia remédios.

Na praça, em frente, vemos uma interessante representação. Cadeiras dispostas em diferentes direções. Muitas ordendas, de frente para o gueto, paralelas formavam um conjunto uniforme. Nas laterais, cadeiras, voltadas para dentro, observando e outras voltadas para fora, dando as costas ao grupo central.
Assim também reagiram as pessoas, os judeus, ordenados, uniformes, desprovidos de seus pertences e com suas identidades abaladas, eram forçados a encarar de frente seu destino, voltados, assim como as cadeiras, para o gueto - não havia outra opção. Os que os cercavam se dividiam, alguns observavam, passivos. Outros davam as costas. Poucos agiram como Thadeus Pankiewicz e Irena Sendler, mantendo seu norte moral, mesmo em tempos onde reinava o absurdo.

Mais uma vez nos perguntamos: O que faríamos numa situação dessas? Arriscaríamos nossas vidas para salvar nossos vizinhos judeus? Gastaríamos nosso próprio dinheiro para conseguir remédios e comida a pessoas que não são de nossa família? O que fazemos nós hoje, em prol de pessoas que passam por dificuldades - ainda que não se assemelhem ao opróbrio dos judeus na Shoá - e que vivem tão próximos dos bairros onde vivemos?

Uma coisa é certa: o nazismo só avançou porque contou com passividade da maioria silenciosa. É impensável que a maior parte dos cidadãos estivesse de acordo com o assassinato cruel de milhões de pessoas, crianças e idosos. Aquela maioria que não concordava, mas que preferiu não se envolver, acostumou-se com o inaceitável, foi uma grande aliada dos assassinos.

Mas podemos julgá-los? O que faríamos nós, pais de família, filhos de anciãos, ao ver a dominação nazista? Arriscaríamos o bem-estar dos nossos, realizando atitudes humanitárias que acarretariam em penas de morte? Qual é a ética do homem comum diante de uma realidade onde a palavra ética parece ter perdido o sentido?

Muro do Gueto

Monumento das Cadeiras





Saímos de Podgorz e seguimos por Cracóvia, onde passamos pela antiga fábrica de Schindler. Ele próprio, um bom exemplo do dilema. Interessado em lucrar com a guerra, com o tempo percebeu que poderia salvar vidas e não poderia permanecer indiferente ao sofrimento e à morte de tantos. Salvou milhares de vidas, cada uma delas, um mundo inteiro. Hoje, há mais descendentes diretos salvos por Schindler vivos do que há judeus em toda a Polônia.

Agora seguimos para Auschwitz (cerca de uma hora de viagem). Temos um dia cheio e muito importante pela frente.

Continue com a gente.

Um comentário:

  1. Impossível não ir às lágrimas com essas incríveis histórias...Imagino o quanto nossos valentes marchantes estão sendo tocados por essa vivência grandiosa. Parabéns a todos e obrigada Daniel, por possibilitar que viajamos junto com vocês através dos lindos depoimentos. Um beijo cheio de carinho e saudades pra minha amada Luana! Estou muito feliz de ver tua carinha entusiasmada e alegre nas fotos! Te amo muitoooo!!!♡♥

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