É impossível imaginar os sentimentos daqueles que chegavam Majdanek. Sem saber por quanto tempo estariam, o que fariam, como seria. Sem saber se estavam sendo trazidos para a morte ou para o sofrimento. Sem saber se veriam novamente sua família. Transcrevo abaixo as palavras de Halina Birenabaum, que descreveu seus primeiros momentos neste inferno.
Soprava uma ventania fria e cruel.
Nós estávamos no meio de uma enorme praça, coalhada de mulheres e crianças, tremendo de frio e cansaço. Mas não era isso que contava agora, depois de termos sido separadas de Hilek. Os homens tinham sido levados para outro lugar, não sabíamos para onde. Não tínhamos a mínima idéia para onde seríamos levadas ou o que fariam conosco.
Era quase meio-dia. Os nazistas iam separando da multidão grupos de pessoas, levando-as para uns barracões não muito distantes. O que havia naqueles barracões? Ninguém voltara de lá e não podíamos saber.
Minha mãe havia me embrulhado com seu casaco e me segurava junto a ela, carinhosamente. O vento jogava-nos areia nos olhos, era tão forte que por custo nos aguentávamos, depois de tantas horas de pé ali na praça, de tantas noites sem dormir, depois do pesadelo que fora a viagem no vagão. Eu pensava: seja lá o que for, só que essa tortura termine … Já não me importa o que nos farão!
Minha mãe alisava minha cabeça, consolando, acalmando. "Mais um pouquinho de paciência", me disse, "daqui a pouco vão nos levar aos chuveiros, vamos tomar banho e trocar de roupa, depois iremos para o campo, para aqueles barracões que vemos daqui, do outro lado da cerca de arame farpado. Lá nós vamos descansar, e depois com certeza vão nos mandar para algum trabalho".
"Você acha que não vão nos matar?", eu perguntei.
"Lógico que não", respondeu. "Pois se no caminho nós vimos prisioneiras com roupas listradas e agora nós as vemos de longe, por trás da cerca do campo".
"E nos barracões há camas e cobertores, e comida?", perguntei.
Influenciada pelas palavras de minha mãe, eu comecei a sonhar com os chuveiros e os barracões. Lá eu vou descansar, matar a fome e me esquentar. Irritei-me com o fato da fila se mover tão devagar. Quanto tempo ainda vai levar até chegarmos aos tais dos chuveiros, para onde os nazistas mandavam o tempo todo novos grupos de mulheres…?
Se eu pudesse saber que aquelas horas ali na praça eram as últimas que eu passava com a minha mãe! Que estas eram as últimas horas de sua vida! E eu ainda estava ansiosa para que chegasse logo o momento de entrar naqueles chuveiros, naquele campo! Como eu poderia saber?
Finalmente, chegou a nossa vez. Os nazistas formaram um grupo com a Hela, a Halina, eu e a Ada Vilner, prima da Hela, graças a quem tínhamos conseguido um lugar no bunker de Mila. Lembrando-me do conselho de Hilek, de não me apoiar na minha mãe, peguei o braço da prima gordinha, que ela mesma tinha oferecido (ela não conseguiu sair de Maidanek: foi uma das primeiras do nosso grupo que morreu no campo). Minha mãe foi atrás de nós com a Hela, e eu nem me virei para ver o que estava acontecendo com elas, estava concentrada em dar um passo atrás do outro, pois cada um deles me causava uma dor lancinante … Até hoje eu não sei quando e como dei por mim lá dentro do enorme barracão, onde havia pilhas enormes de roupas e sapatos, do chão até o teto. Os alemães mandaram que nos despíssemos completamente, jogando na pilha todas as roupas, menos os sapatos. Hela trocou os sapatos leves que tinha por um par de botas, que havia tirado secretamente da pilha de sapatos. Insinou que eu fizesse a mesma coisa; mas eu estava com medo e muito deprimida. Nada me interessava naquele momento, eu não tinha nem força para pensar naquela porcaria de sapatos … Tive vontade de me agarrar ao pescoço de minha mãe, de tanta alegria, e mostrar-lhe meu amor e a confiança que tinha em tudo que dizia. Procurei-a com os olhos entre a multidão que enchia o local dos chuveiros. Mas ela não estava em lugar nenhum. Comecei a procurá-la nervosamente, descobri onde estava a Hela e sua prima, Halina. Mas minha mãe não estava ali. Onde está a minha mãe? Senti um zumbido na cabeça, um sufoco na garganta, não podia fazer a pergunta em palavras. "Onde está a minha mãe?", consegui finalmente cochichar à minha cunhada.
Hela olhou para mim, vi suas faces deprimidas, depois ela baixou a cabeça e, embora tenha dito num sussurro, eu ouvi claramente: "Sua mãe não está …".
Senti como se tivessem me cortado de repente os braços e as pernas. Mas ainda não podia compreender o verdadeiro significado daquelas palavras. Não sabia quando a tinham levado, como isso aconteceu e por que?
Empurrada por centenas de mulheres nuas, eu cheguei num dado momento aos chuveiros. "Os chuveiros!", pensei alegremente. Se já estamos nos chuveiros, daqui a pouco iremos para o barracão aquecido. Minha mãe tinha razão: não vão nos matar, vamos viver e trabalhar, que bom!
Pois se todas as nossas conhecidas da Umschlag estavam ali! Minha mãe é jovem, com suas faces coradas ela parece mais saudável e bonita do que as outras mulheres, pelo menos é o que eu pensava. E logo ela eles levaram? Não podia de jeito nenhum me conformar com a idéia de que ela se foi realmente, que nunca mais vou vê-la! A todo momento eu olhava na direção da porta. Ela tem que entrar já, me abraçar, me acalmar. Mas a mamãe não entrou. Eu fiquei dando voltas como um autômato, repetindo mecanicamente: "Minha mãe não está". Todo o resto deixou de existir para mim. Eu já não podia fazer mais nada, nem mesmo chorar. Quando nos deram roupas, que precisávamos vestir rapidamente sobre o corpo molhado, Hela começou rapidamente a cuidar de mim, pois viu que eu estava estupefata.
"De agora em diante, eu sou a sua mãe, você compreende?", disse-me com decisão.
Assim se tornou Halina Birenbaum uma prisioneira de Majdanek.
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