Está começando uma nova semana. A semana da Marcha da Vida.
Ontem à noite fomos ao Kabalat Shabat na sinagoga de Noczyk (leia-se Nojik), a única que restou de pé na cidade após a guerra. É emocionante pensar que recebemos o Shabat no mesmo lugar onde, por gerações, milhares vinham derramar seus corações. Hoje a sinagoga continua ativa, transmitindo um clara mensagem: "Am Israel Chai" - O povo de Israel vive. Não são mais centenas de milhares de judeus em Varsóvia, onde, segundo contam, em uma única rua viviam mais de 80 rabinos. Hoje, em toda a Polônia não há mais do que 8 ou 10 mil judeus. Ainda assim, a sinagoga continua ativa e viva, aberta todos os dias do ano e reunindo pessoas do mundo inteiro que vem aqui conhecer o passado, vislumbrar o futuro e manter viva a memória dos que se foram.
Voltamos ao hotel para jantar. Apesar do cansaço da viagem foi um jantar de Shabat animado, cantamos e comemos bem - uma verdadeira refeição de Shabat (com Coca-Cola e tudo...). Depois nos reunimos ainda para cantar e aprender novas melodias.
Pela manhã saímos para conhecer a cidade. O clima em Varsóvia frio neste shabat, hostil a caminhadas e acompanhado de uma insistente e gelada chuva não ajudou muito. Por outro lado, a atmosfera inóspita que tornava desconfortável nossos passos também contribuiu para perceber melhor a tristeza dessa cidade, que perdeu mais da metade de seus habitantes há menos de um século. Daqui, 300 mil judeus foram deportados para a morte em Treblinka e assassinados porque judeus. Centenas de milhares de poloneses da cidade também foram assassinados pelos nazistas - é possível enxergar a sombra que o Holocausto lança sobre Varsóvia até hoje e basta um olhar mais atento para perceber as dezenas de monumentos e marcos históricos espalhados pelas ruas, a maioria com o objetivo de preservar a memória de acontecimentos terríveis e que serão eternamente lamentados pela humanidade.
As ruas mudaram muito desde a época da guerra. A cidade foi levada a ruínas após levantes contra os nazistas - o famoso levante do Gueto, coordenado por grupos jovens judaicos e pelo famoso Mordechai Anilewicz e também o levante dos poloneses contra a ocupação nazista. Como resultado de seus heroicos esforços, pouco sobrou na cidade ao fim da Guerra. Após a chegada dos soviéticos, a cidade, que perdera também mas da metade dos seus habitantes, teve de se reerguer. O pessoal da foice e do martelo, no entanto, construiu uma cidade diferente da Varsóvia pré-guerra, trazendo para a cidade a influência da arquitetura russa e apagando a maior parte dos vestígios dos edifícios (já em ruínas) do que antes era o Gueto de Varsóvia.
Pouco sobrou do Gueto que, entre os anos de 1941 e 1943, os nazistas instituíram e para o qual todos os judeus da cidade e das cercanias eram obrigados a se transladar - o Gueto de Varsóvia.Somente um pedaço de muro aqui e outro ali e alguns poucos prédios que ficaram de pé.
O Gueto era enorme, o que torna ainda mais terrível imaginar a dimensão da tragédia. Seus muros cercavam 2.1% da área da cidade, onde foi confinada 30% da população. Onde antes moravam dezenas de milhares de poloneses (judeus e não-judeus), passaram a viver quase meio milhão de judeus. A superlotação, a fome, a miséria e a doença que mataram centenas de milhares faziam do Gueto um lugar que sequer podemos imaginar.
Após conhecer um pouco da história da cidade, fomos almoçar no restaurante Magat. Especialmente montado com alimentação Kasher e de Shabat para receber os grupos da Marcha. Também no almoço celebramos com uma refeição bem animada.
Seguimos caminhando, mas a chuva apertou e tivemos que voltar para o hotel para nos abrigar. Como não era possível seguir à céu aberto, alguns ficaram no hotel e outros, acompanhados do prof. Iair e da Fernanda foram conhecer o Shopping, que fica bem ao lado do nosso hotel.
Depois jantamos e fizemos a havdalá, para encerrar esse inesquecível Shabat. Após a havdalá tivemos um encontro muito interessante: Um bate-papo com jovens poloneses (não-judeus), para conhecer suas opiniões e sentimentos em relação ao holocausto, aos judeus, aos desafios da vida na Polônia e a percepção que as pessoas aqui tem sobre diferentes assuntos.
Algumas fotos de hoje:
Varsóvia sob Chuva (foto: Miguel Mattos)
Varsóvia sob Chuva (foto: Miguel Mattos)
Varsóvia sob Chuva (foto: Miguel Mattos)
(Reparem na faixa que imita um piano. Está em frente ao Palácio da Cultura e da Ciência)
Varsóvia sob Chuva (foto: Miguel Mattos)
Trecho do Muro do Gueto (foto: Miguel Mattos)
Fachada de Prédio que Resistiu (foto: Miguel Mattos)
Pátio que Resistiu ao Tempo (foto: Miguel Mattos)
Bate-Papo com jovens poloneses
Bate-Papo com jovens poloneses
Daniel: não te vejo nas fotos.
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