Lá, na estação de onde foram deportados centenas de milhares de judeus do Gueto de Lodz para campos de extermínio há uma locomotiva da época. Atrás dela, vagões de gado com pequenas aberturas laterais, o suficiente para entrar um pouco de ar, mas não para atenuar a sensação de clausura experimentada por quem entra.
Entramos no vagão. Nós somos apenas quarenta. E ficamos lá apenas por poucos minutos. Ainda assim, experimentamos o desconforto que o vagão proporciona. Nazistas forçavam nestes vagões, não raro, uma centena de pessoas. Sem pão e sem água. Sem saber se viajariam por algumas horas ou por vários dias (e, às vezes, a viagem durava vários dias). Não havia lugar para que todos se deitassem ao mesmo tempo.
Nesses vagões pais levavam seus filhos, por vezes, ainda bebês. Apinhavam-se nos cantos pessoas de todas as idades, confinadas como gado. Conviviam com os corpos dos que não resistiram, num apertado espaço fedorento, onde não havia banheiro ou privacidade. Idosos lutavam contra a fome, o frio ou o calor, alentados apenas pela esperança de que, talvez, quem sabe, aquele trem não os levaria para a morte, mas para algum campo de trabalhos ou outro destino - o que, com raras exceções, não acontecia.
(Para quem quiser conhecer essa triste realidade e seus dilemas, sugiro assistir "O Último Trem para Auschwitz", que conta a história de 688 judeus deportados de Berlin e sua viagem no trem).
Dentro do vagão, ouvimos explicações de nosso guia e refletimos a respeito do que poderia ser feito e o que poderia pensar alguém num vagão como esse. E se fosse possível escrever um bilhete e mandar para o "mundo exterior", o que escreveriam?
Escutamos uma canção, escrita pelo filho de um sobrevivente, e seguimos para o monumento: um comprido túnel em cujas paredes estão expostas as listas de nomes dos deportados para a morte. As listas são, por si só, um testemunho da crueldade e da eficiência da máquina de morte nazista. Catalogavam, pesquisavam e ordenavam o transporte e a morte de milhões. A humanidade já havia presenciado massacres, guerras e chacinas. Mas nunca antes na história se orquestrou com tamanha racionalidade e de forma sistemática o assassinato de milhões. E é nosso dever assegurar que nada que se assemelhe jamais volte a acontecer.
Visto de fora, o monumento se assemelha a um longo trem, no qual estão estampados os anos da guerra e que é puxado por uma locomotiva que se parece a uma chaminé de um forno crematório.
Radegast (no fundo, a locomotiva)
Dentro do Vagão
Monumento com as Listas de Deportação
Monumento (visto por fora)
Seguimos então para o parque dos justos entre as nações, onde são homenageadas não-judeus (a maioria poloneses) que arriscaram suas vidas para salvar outros seres humanos. Pessoas que não aceitaram com indiferença o sofrimento alheio e se colocaram em risco aos invés de fazer como a maioria que, por conveniência ou por medo, se calavam e olhavam para o outro lado diante de situações que nenhum ser humano deveria aceitar.
Lá almoçamos e voltamos para o ônibus. Agora seguimos viagem. Próxima parada: Cracóvia.
Almoço no Parque dos Justos Entre as Nações
Almoço no Parque dos Justos Entre as Nações
Almoço no Parque dos Justos Entre as Nações
PS - Julia Sokolovsky acabou de ser entrevistada ao vivo na Hora Israelita.
PS2 - À noite, com mais tempo, bli neder, conto mais sobre os lugares que visitamos, especialmente sobre o cemitério de Lodz, sobre o qual não falei muito.
Daniel e turma. Caras maravilhosas, fotos maravilhosas e entrevista maravilhosa. Vejam se dá para postar o link da entrevista.
ResponderExcluirBeijos e boa jornada,
Ilse